Ato em Teresina reuniu movimentos sociais para discutir racismo, desigualdade e os desafios enfrentados pelas mulheres piauienses
O Instituto da Mulher Negra do Piauí – Ayabás participou no domingo (8) de um ato realizado na Praça Pedro II, no centro de Teresina, que reuniu movimentos sociais e coletivos feministas para discutir as vulnerabilidades enfrentadas pelas mulheres, especialmente as mulheres negras no estado.
Celebrado mundialmente em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher é marcado por manifestações em diferentes estados brasileiros. Neste ano, organizações e coletivos ocuparam as ruas para mobilizar a sociedade e ampliar o debate sobre direitos, desigualdades e enfrentamento da violência de gênero.


Realidade marcada por desigualdades
Durante o ato em Teresina, representantes de movimentos sociais e integrantes da sociedade civil abordaram temas como educação antirracista, machismo institucional, condições de trabalho, maternidade e sexualidade. Para a Noélia Sampaio, secretária-geral da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Piauí e ativista pelos direitos das mulheres negras, o enfrentamento dessas violências exige mudanças profundas na sociedade.
“O combate à vulnerabilidade das mulheres negras e o enfrentamento das violências exigem ações integradas, como letramento racial e o combate ao racismo e ao sexismo estruturais. Quando falamos disso, falamos também de mudança de cultura, que passa pela educação inicial na escola, pela educação dentro da família e pelas instituições”, afirmou.
Noélia também chamou atenção para como desigualdades sociais acabam sendo reproduzidas até mesmo em tecnologias e sistemas digitais.
“Veja que até os algoritmos aprendem a segregar, porque são treinados a partir de dados criados por seres humanos e refletem as desigualdades e preconceitos existentes na sociedade.”
A advogada reitera que existe uma urgência em ações de incidência para o enfrentamento ao racismo e sexismo e a inserção dos debates em instituições de ensino e nas comunidades.
Racismo, pobreza e desigualdade
No contexto regional, muitas mulheres negras piauienses vivem em condições de moradia precária, sobretudo em regiões periféricas das cidades. Grande parte também está inserida no trabalho informal, o que as expõe a situações de vulnerabilidade social e econômica.
A militante Ana Cleide, integrante da Frente Popular de Mulheres e do Coletivo Mulheres da Guia, destacou que essas vulnerabilidades estão diretamente relacionadas às desigualdades históricas enfrentadas pelas mulheres negras. Segundo ela, embora existam avanços na presença de mulheres negras em espaços institucionais, ainda há resistência e falta de reconhecimento.
“No Piauí e no Brasil já temos mulheres negras ocupando cargos importantes. Em contrapartida, quando assumimos posições de liderança ou cargos de poder institucional, muitas vezes somos rechaçadas. Ainda falta respeito e ainda precisamos enfrentar o racismo estrutural.”
Ana Cleide também ressaltou que a desigualdade econômica continua sendo um dos principais desafios.
“Existem outras questões que nos atravessam, como o fato de sermos maioria nas situações de pobreza ou de extrema pobreza. Por isso, precisamos que as políticas públicas cheguem efetivamente até nós.”
Dados recentes reforçam essa preocupação. Segundo o Atlas da Violência 2025, embora o Brasil tenha registrado uma redução de 20,4% nos homicídios de mulheres negras entre 2013 e 2023, alguns estados seguem na contramão dessa tendência.
Entre os estados com maiores aumentos estão o Piauí (58,6%), Ceará (57,5%) e Amazonas (32%). O Piauí aparece entre os estados com maiores taxas de crescimento nesse tipo de violência.
No ano de 2025 os números registrados em casos de feminicídio revelam uma condição de baixos números em medidas protetivas e subnotificações nas violências que antecedem o fim da vida das vítimas. Dados lançados do mesmo ano da Secretaria de Segurança Pública do Piauí, por meio do Núcleo de Estudos Avançandos em Segurança Pública- DATASSP, apontavam uma tendência de crescimento nos casos de feminicídio em relação aos anos anteriores. Além dos números obtidos pela SSP-PI, a Rede de Observatórios da Segurança apontou que a cada 24 horas, ao menos 12 mulheres foram vítimas de violência em 2025, nos nove estados monitorados pela Rede (AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ, SP), o dado é revelado no novo boletim Elas Vivem: a urgência da vida.
Mobilização permanente
Para a militante Neide Carvalho, integrante da coordenação nacional da Central de Movimentos Populares e do Coletivo Nacional de Mulheres da CMP, a mobilização do 8 de março continua sendo essencial para denunciar esse cenário.
“O oito de março é uma data afirmativa. Mesmo em pleno século XXI ainda precisamos ocupar as praças, as ruas e as redes sociais para mostrar à sociedade que toda forma de desrespeito e violência contra as mulheres não é um problema das mulheres, mas de toda a sociedade”, afirmou.
Ela também alertou para o aumento recente dos casos de feminicídio.
“Do final de 2025 para o início de 2026 temos enfrentado um aumento absurdo nos casos de feminicídio. Por isso, este momento é também de reafirmar que é necessário, mais do que nunca, a união de todos os territórios e de todos os poderes para proteger e manter as mulheres vivas.”
Ao ocupar as ruas no 8 de março, movimentos sociais, coletivos e organizações reafirmaram que a luta pelos direitos das mulheres — especialmente das mulheres negras — permanece urgente no Piauí. Em meio a desigualdades históricas, violência de gênero e desafios estruturais que atravessam raça, classe e território, as mobilizações buscam ampliar o debate público e pressionar por políticas que garantam proteção, dignidade e igualdade. Para as lideranças presentes no ato, o enfrentamento dessas violências depende não apenas de medidas institucionais, mas também de uma mudança cultural capaz de transformar as relações sociais e assegurar que as mulheres possam viver com segurança e autonomia.